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Os Novos Vilões da Vida a Dois

(matéria feita comigo e publicada no Jornal O Vale, caderno Viver - São José dos Campos - SP).


- Privacidade é importante para um relacionamento? Por quê?

Sim, privacidade é importante para todos os tipos de relacionamentos. Ela garantirá, por exemplo, que o indivíduo mantenha sua identidade individual e suas características, se resguardando e compartilhando o que achar necessário.A manutenção dessa identidade é importante para que o indivíduo não se perca de suas próprias opiniões, comportamentos e crenças, evitando que ele passe a existir somente a partir da mescla com o outro.

- Quais os fatores negativos que a falta de privacidade pode ocasionar para um relacionamento?

Entre os principais fatores que a falta de privacidade pode ocasionar para um relacionamento, podemos citar:
- sensação de controle pelo parceiro e consequente perda da liberdade individual;
- perda da motivação para compartilhar espontaneamente vivências e acontecimentos;
- percepção de ter se estabelecido um relacionamento baseado na insegurança e na desconfiança;
- sentimento de submissão; entre outros.

- Na atualidade, quais os principais erros que os casais cometem em se tratando de privacidade?


Entre os principais erros cometidos pelos casais em se tratando de privacidade, estão as noções de que:

  • o parceiro precisa saber tudo da vida do outro para realmente conhecê-lo
  • saber todos os detalhes da vida do parceiro faz com que ele esteja sob controle
  • limitar a privacidade garante a fidelidade do parceiro

Esses conceitos podem resultar em excessos de invasão de privacidade como:

  • a fiscalização das redes sociais, do celular e computador do parceiro, entre outros.
  • a solicitação constante do outro, através de ligações telefônicas, mensagens de celular e etc.
  • intervenções frequentes na rotina do parceiro por meio de visitas inesperadas ao ambiente de trabalho, à casa e etc.
  • a solicitação desmedida de explicações sobre a rotina do outro nos momentos em que esteve desacompanhado.

- Nas redes sociais intimidade virou coisa corriqueira. Isso estimula a invasão de privacidade nas relações da vida real?

Sim. O fato de as pessoas, em sua maioria, não preservarem sua privacidade nas redes sociais frequentemente induzem o sujeito à dedução de que aquela é também a conduta de privacidade do indivíduo no mundo real. Além disso, as constantes rotinas de checagem nos perfis alheios e o interesse na vida do outro estimulam o comportamento controlador na vida real.

- Outro dia vi um post na internet que dizia o seguinte: "Nos relacionamentos de hoje você pode pegar na barriga, bunda, peito ou coxa... Menos no celular e no inbox do facebook. Aí já é falta de respeito e de privacidade". Qual é sua opinião a respeito desse comentário?

As relações humanas estão, cada vez mais, sendo banalizadas, e, portanto, a noção de respeito mudou. Os laços reais duram cada vez menos pois estão baseados em aspectos voláteis, como o sexo e o interesse pela imagem. Essa inversão de valores pode gerar a deturpação do que se prioriza, como na citação acima: o que antes era visto como proibido, como tocar sem autorização nas partes íntimas de alguém, hoje se torna aceitável e é estimulado. A aceitação das pessoas de que o "eu" real possa ser violado enquanto o "eu" virtual não for maculado é absurda.

- As redes sociais têm separado muitos casais. Na sua opinião, isso pode estar atrelado com a dificuldade dos casais de lidar com a privacidade?


A dificuldade dos casais em lidar com a privacidade pode ser um dos fatores que contribuem para isso, uma vez que ela pode alimentar os comportamentos mencionados no início. Há outros fatores envolvidos, como:
- a possibilidade oferecida pelas redes sociais em se viver uma vida dupla;
- a priorização do contato virtual em detrimento do real, diminuindo o convívio;
- a excessiva exposição de questões pessoais nas redes sociais e os consequentes conflitos e constrangimentos que isso pode gerar;
- a facilidade de intervenção no relacionamento, através da rede, por parte de terceiros, entre outros.

- Se tratando de privacidade, o que os especialistas consideram saudável/equilibrado em um relacionamento? Dê alguns conselhos.


Em relação a privacidade, é considerado saudável/equilibrado tudo aquilo que não interfere negativamente na qualidade de vida do indivíduo. O melhor a fazer é conversar e estabelecer os limites de cada um, que devem ser respeitados por acordo mútuo. Se há, por uma das partes, a necessidade de invadir os limites de privacidade estabelecidos, isso pode ser um indício de algum desequilíbrio, como insegurança excessiva, e, se o diálogo não for suficiente para saná-lo, é recomendada a busca de ajuda profissional.