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Quando pensamentos e rituais nos fazem reféns - Transtorno Obsessivo Compulsivo - TOC


“Fecheia janela? Sim, fechei com certeza.

1,2, 3, 4, 5 quadros.

Mase se não fechei? Como posso não ter fechado? Acabei de fazê-lo.

Númeroímpar de quadros não dá, preciso contar duas vezes.

1,2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10.

Mas...e se não fechei? Meu filho poderia cair lá embaixo.

Melhorcontar novamente: 1, 2, 3, 4, 5...

Masquadro pequeno conta meio? 1, 2, 2 e meio, 3 e meio...

Maseu fechei. Não, não fechei. Talvez eu tenha aberto e não tenha percebido. Ouentão talvez eu não a tenha trancado adequadamente.

Comofaço para dar número par? Vou pular o quadro pequeno. 1, 2, 3, 4.

Aimeu Deus, é melhor checar a janela novamente. Ah sim, está fechada.

Ufa,até suei minhas mãos. Suor é sujo, é melhor lavá-las.

Eembaixo das unhas? Vou usar essa escova. Mas a escova está limpa? Melhor usardesinfetante, sabonete não está limpando bem.

Aique droga: está saindo sangue. Sangue pode ser sujo também.

Voulavar até parar de sangrar.

Masfechei mesmo a janela?”

(texto escrito por Roberto Guimarães – Especialistaem Sociologia e Diretor do Grupo Projetar – Evolução Pessoal)

O texto acima representa osofrimento de alguém que luta contra o aprisionamento psíquico gerado peloTranstorno Obsessivo Compulsivo (TOC) que, segundo o NIMH – National Instituteof Mental Health, atinge de 2 a 3% da população geral.

Definição

Segundo a Classificação deTranstornos Mentais e de Comportamento da CID – 10, o TOC é caracterizado porpensamentos obsessivos e/ou atos compulsivos recorrentes.

Pensamentos obsessivos são ideias,imagens ou impulsos que invadem a mente do indivíduo repetidamente e seguindoum mesmo padrão. O indivíduo tenta resistir a eles, mas raras vezes obtém êxito.Tais pensamentos ou atos são grande fonte de angústia por serem, muitas vezes,violentos, obscenos ou sem sentido. Em alguns casos, por exemplo, o obsessivocompulsivo sente que certas frases se repetem em seus pensamentos enquanto conversacom alguém, e isso gera sofrimento, pois, além de ter a atenção constantemente dividida,muitas dessas frases representam coisas que o indivíduo não deveria e ou não aceitariadizer ou pensar. Por exemplo, enquanto conversa com o chefe, seu pensamento podeser invadido por frases como “detesto você, detesto você, detesto você”, o queresultará na luta contra o ímpeto de dizer essa frase. Ou, em outro exemplo, enquantolava louças, o indivíduo se depara, durante toda a tarefa, com inúmerasrepetições de diálogos de um determinado filme em sua mente, tirando-lhe aatenção do momento presente.

Atos ou rituais compulsivos sãocomportamentos que se repetem seguindo um mesmo padrão. Muitos deles não sãoagradáveis e tampouco resultam em ações concretamente úteis. O sujeito normalmenteos realiza como forma de prevenir algum evento temido, mesmo que quase nuncatais atos ou rituais estejam diretamente relacionados com o evento que quer evitar.Por exemplo, quando o sujeito vai sair de casa, pode sentir grande ansiedadecomo consequência de um medo súbito de morrer. Para evitar que morra, pode sever induzido, por exemplo, a fechar todas as janelas, arrumar as almofadas dosofá, conferir se as torneiras estão fechadas, dar a volta pela mesa da sala eetc.. Somente após concluir tais etapas consegue abrir a porta e sair.  Ações como essas tenderão a ocorrer todas asvezes que repetir a ação de sair de casa, mesmo que tais rituais não tenhamnenhuma relação concreta com a prevenção de sua morte.

A realização dos atos ou rituaiscompulsivos resulta na diminuição imediata da ansiedade gerada, mesmo queconscientemente o indivíduo reconheça que são ações inúteis em sua maioria, esem nenhum poder preventivo. Caso não as realize, sentirá que está contribuindopara que o fato temido ocorra – no exemplo acima, a morte. Assim, a ansiedadecresce conforme essas “chantagens” acontecem e, caso o indivíduo não possa“neutralizar” essas ameaças, ficará mais ansioso e provavelmente criará outraforma de “neutralizar” essa nova ansiedade. Por isso é, para o obsessivocompulsivo, tão difícil a não realização desses rituais. Algumas pessoas podemchegar a passar horas e horas imersas nesses rituais. São comuns em estágiosmais avançados desse transtorno banhos com longas horas de duração, lavagensexcessivas que resultam em ferimentos à pele, ações repetitivas que seprolongam por dias e impedem o indivíduo de realizar qualquer outra ação, e quaisqueroutros ciclos intermináveis de rituais.

Sintomas

Os sintomas mais comuns doTranstorno Obsessivo Compulsivo são:

·        Limpeza/lavagem: lavar as mãos várias vezes por dia mesmo estando limpas; varrer a casarepetidas vezes sem que haja sujeira no chão; tomar banho várias vezes por diasem que haja necessidade de se lavar;

·        Verificação:checar inúmeras vezes se portas, janelas, torneiras e válvulas de gás estãofechados mesmo quando não foram abertos após a última checagem;

·        Repetições:repetir mentalmente ou verbalmente palavras, parágrafos, frases ou orações,mesmo em momentos que requerem atenção e concentração em determinadas tarefas;entrar e sair repetidamente de determinado local seguindo um padrãoestabelecido, por exemplo, sem pisar no friso do piso ou pisar primeiro sempre como mesmo;

·        Contagem:contar repetidamente os quadros da sala mesmo não tendo havido nenhumaalteração na decoração desde a última contagem; contar inúmeras vezes osobjetos de determinado local;

·        Ordenação/simetria/sequência:alinhar inúmeras vezes objetos para que fiquem numa posição considerada corretaou aceitável para o indivíduo, por exemplo, alinhando os livros um em cima dooutro sem que as bordas apareçam; alinhar objetos que não pertencem à própriapessoa, por exemplo, alinhar os quadros na parede de um consultório médico oude algum estabelecimento comercial sem que ninguém tenha solicitado;

·        Acumulação/colecionamento:colecionar objetos sem perspectiva concreta de uso como caixas de leite vaziasque um dia poderão servir para algum uso; acumular revistas e jornais antigosque supostamente poderão ser úteis no futuro, como, por exemplo, para forrar ochão para dormir caso a cama quebre.

Um estudo realizado pelaUniversidade de Denver – Estados Unidos (Revista Mente e Cérebro – Agosto de2014) associou o TOC especificamente a alterações na função executiva docérebro, que compreende os processos cognitivos desde o planejamento à execuçãode tarefas, entre eles: memória de trabalho, atenção sustentada, inibição deimpulsos e recuperação de conhecimentos relevantes da memória de longo prazo.

A análise dos dados obtidos mostrouque pessoas com TOC apresentavam, com mais frequência, características como:

·        Inibição;

·        Rigidezde pensamento;

·        Impulsividade;e

·        Dificuldadesnas memórias de trabalho verbal e visuoespacial.

TranstornoObsessivo Compulsivo (TOC) x Transtorno de Personalidade Obsessiva Compulsiva(TPOC)

É importante diferenciar oTranstorno Obsessivo Compulsivo do Transtorno de Personalidade ObsessivaCompulsiva (TPOC), uma vez que a confusão entre eles é muito comum.

Segundo o ManualDiagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais DSM-IV TR, o Transtorno dePersonalidade Obsessiva Compulsiva (TPOC) é caracterizado por grandepreocupação com organização, perfeccionismo e controle mental e interpessoal.Há a tentativa de manter sempre o controle através de atenção extenuante aregras, detalhes triviais, procedimentos, listas, horários, formalidades, muitasvezes com o prejuízo das atividades que se quer realizar. Os indivíduos quepossuem esse transtorno são excessivamente cuidadosos e propensos à repetição,dando imensa atenção a detalhes e à verificação repetida em busca de possíveiserros nas tarefas que os permeiam.

O ponto principal na diferenciaçãoentre esses dois transtornos é que no Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC)existem as obsessões, as compulsões e as tentativas de neutralizar possíveisameaças através das práticas de rituais, e no Transtorno de PersonalidadeObsessiva Compulsiva (TPOC) essas questões não estão presentes, caracterizando-sepor grande preocupação com organização e perfeccionismo.

Tratamento

A psicoterapia é de fundamentalimportância, pois auxilia o sujeito no entendimento desse transtorno, para quepossa lidar melhor com ele e, consequentemente, aliviar o sofrimento gerado e osprejuízos que acarreta. Além disso, ajuda a esclarecer a função que otranstorno desempenha em sua vida e busca resgatar sua origem, quando e como seinstalou.

Em muitos casos, é necessáriaintervenção medicamentosa para que o indivíduo possa ter algum alívio nossintomas. A prescrição de medicamentos caberá ao psiquiatra.


- Vídeo Ilustrativo sobre Transtorno Obsessivo Compulsivo (vídeo em Inglês):

    http://themighty.com/2015/02/i-have-ocd-this-is-what-its-like-to-be-in-my-mind-for-3-minutes2